Reflexões sobre solidão -por Rodrigo Rodrigues


A solidão é multifacetada, ou melhor, possui diversos significados em nossa sociedade atual. Enquanto alguns a consideram um caminho para a insanidade, outros a enxergam e utilizam como um castigo/punição. Por outro lado, certos segmentos consideram-na facilitadora das reflexões e do autoconhecimento, podendo também ser entendida como libertadora e iluminadora.

Todos nós, seres humanos, temos nossa fase narcísica em nosso desenvolvimento psíquico, em que nos descobrimos enquanto seres individuais e ficamos naturalmente voltados para a descoberta de nós mesmos.

É a construção do Eu, do indivíduo, a descoberta da individualidade. Um período natural e sadio de momentos de solidão que experimentamos ainda pequenos. Além do período intra útero, também solitário, talvez esse seja o período das primeiras experiências de solidão para um ser humano. E também de interdependência, por mais paradoxal que possa parecer.

No primeiro, intra-útero, uma experiência solitária inconsciente. No segundo, durante o desenvolvimento infantil, as primeiras experiências são pouco mais conscientes de solidão e, ao mesmo tempo, de dependência dos responsáveis.

Não uma consciência plena e capaz de abstrações, mas digo uma consciência de sua própria individualidade recém-descoberta. Apesar de natural e necessário, os responsáveis podem e devem, com o crescimento da criança, apresentá-la o mundo que a cerca, as demais individualidades que existem ao seu redor e como interagir, compartilhar, dividir e reagir ao contato com as individualidades que inevitavelmente se aproximarão dos nossos incipientes limites que ainda estão sendo descobertos.

Esse período pode ser marcante, em termos psíquicos, para a formação do novo indivíduo. Serão as primeiras lições de como reconhecer a própria individualidade, iniciar a construção dos seus primeiros limites e, tão importante quanto isso, como interagir com as demais individualidades que coexistem no mundo. De forma mais direta: como lidar com as inúmeras diferenças entre as também incontáveis individualidades existentes.

Difícil negar que a raça humana seja uma raça gregária, social. Difícil negar nossa interdependência em diversos níveis de relacionamentos inter-pessoais. Deve ser uma minoria a parcela de seres humanos que sejam capazes de realmente viver de forma absolutamente isolada, sem contato ou sem utilizar com qualquer coisa produzida por outra pessoa. Mas a imensa maioria de nós depende uns dos outros. Portanto, apesar de precisarmos de momentos de solidão para o reconhecimento e construção da própria individualidade, necessitamos também aprender a nos relacionarmos com as demais individualidades, isto é, com as diferenças que encontramos nos outros. E isso, invariavelmente, gera conflitos internos. Conflito de diferenças. E essa tendência belicosa na lide com as diferenças é sustentada por toda uma cultura na qual estamos imersos.

Passamos todos pela criação e reconhecimento de nossa individualidade, mas nossa cultura estimula uma visão de mundo e uma formação humana baseada na competição. Somos formatados para que nossa individualidade prevaleça sobre todas as outras, impondo nossa visão de mundo e, preferencialmente, acabando com todas as diferenças. Que sejam todos iguais a mim.

A individualidade passa a ser individualista, egoísta. Trocamos a individualidade pelo individualismo. O respeito e cooperação entre as diferentes individualidades são substituídas pela competição feroz alimentada pelo individualismo. Contudo, esse individualismo exacerbado acaba por nos fazer deparar com a solidão.

Se somos individualistas e competimos pela prevalência de nós mesmos em detrimento dos outros, inevitavelmente nos encontraremos isolados, solitários, perdidos em nós mesmos. E isso nos obriga a encarar nossas próprias sombras, que insistimos em negar durante boa parte da vida. Estimulados por uma sociedade competitiva que não aceita fraquezas, diferenças ou erros e defeitos.

Quando ficamos sós, tendemos à interiorização e nos deparamos com nossas próprias fraquezas. E isso dói. Insistimos em não aceitar ou encarar e que queremos fugir de nossas angústias e dores. A solidão ganha um valor negativo, pois fica associada a sofrimento. Mas em algum momento de nossas vidas, a dor provocada por um individualismo doentio e pela consequente solidão será insuportável e nos fará buscar por uma saída.

Em um caminho de autoconhecimento e busca pela evolução pessoal, uma saída para a dor e para o sofrimento, somos obrigados a encarar novamente a solidão, contudo, mesmo não sendo esse o objetivo inicial, passaremos por uma ressignificação da solidão.

Nesse novo caminho de busca interna, a solidão será necessária para o aprofundamento em si mesmo e percebermos que a solidão não é em si boa ou má. Ela pode ser significada de diversas formas pela afetividade humana, mas é um instrumento inerente de crescimento e pode ser libertadora, iluminadora, enfim, pode ser ressignificada em solitude. Um estado de solidão sem dor, sem sofrimento. Um estado de alegria na solidão.

E então, poderemos ressignificar 2 conceitos e buscar novas reflexões sobre eles: individualidade x individualismo e solidão x solitude.

Rodrigo Rodrigues - Terapeuta Lumni

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