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Ensaio 3 — A matéria tem um dentro - Da complexidade à consciência

Foto do escritor: Instituto Lumni TERAPIAS ESPIRITUALISTAS
Instituto Lumni TERAPIAS ESPIRITUALISTAS
há 12 horas
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No primeiro ensaio desta série, encontramos o menino Teilhard procurando nas pedras alguma coisa que não pudesse morrer. A solidez do ferro parecia prometer permanência, mas logo a ferrugem revelou que até aquilo que parecia indestrutível estava submetido ao tempo. A pedra também se transformava. Nada permanecia exatamente como era.

No segundo ensaio, acompanhamos o jesuíta, o cientista e o homem condenado ao silêncio. Teilhard recusou-se a escolher entre a matéria estudada pelo paleontólogo e o espírito contemplado pelo sacerdote. Não porque desconhecesse as diferenças entre ciência e religião, mas porque acreditava que ambas pertenciam a uma única realidade e que, se pareciam inconciliáveis, talvez ainda não estivéssemos olhando com suficiente profundidade.

Agora chegamos ao coração dessa tentativa de reconciliação.

Teilhard fará uma afirmação tão estranha quanto decisiva: a matéria tem um dentro.

À primeira vista, poderíamos imaginar que ele estivesse dizendo que uma pedra pensa, que um átomo sente ou que existe uma pequena consciência adormecida no interior de cada objeto. Não é isso. A ideia é muito mais sutil — e também muito mais arriscada.

Teilhard está perguntando como uma matéria aparentemente inconsciente pôde produzir seres conscientes. Em outras palavras: que tipo de universo precisa existir para que, em determinado momento de sua história, uma parte dele se torne capaz de olhar para o todo e perguntar pelo seu sentido?

A pedra que o menino segurava não pensava nele. Mas pertencia ao universo que, bilhões de anos depois, produziria alguém capaz de pensar a pedra.

O universo visto apenas de fora

A ciência desenvolveu instrumentos extraordinários para observar o exterior das coisas. Podemos analisar a composição química de uma rocha, estudar a estrutura de uma célula, acompanhar a atividade elétrica de um cérebro e identificar alterações fisiológicas associadas a diferentes estados mentais. Quanto mais os instrumentos se aperfeiçoam, mais profundamente penetramos na organização material do mundo.

Mas, quando chegamos ao ser humano, encontramos um fato que não pode ser inteiramente descrito por fora: existe uma experiência acontecendo.

Um observador pode acompanhar minha atividade cerebral enquanto olho para uma paisagem. Pode medir alterações na frequência cardíaca, registrar movimentos oculares e identificar regiões cerebrais envolvidas na percepção. Ainda assim, nenhuma dessas medições é a experiência que tenho ao contemplar aquela paisagem. Existe alguma coisa que é vê-la, senti-la, lembrá-la e ser afetada por ela.

Não somos apenas organismos observáveis. Somos organismos para os quais existir tornou-se experiência.

Teilhard percebe que uma descrição exclusivamente exterior do universo termina diante de um problema inevitável: aquele que descreve o mundo também pertence ao mundo descrito. A consciência do pesquisador não chegou de fora do cosmos. O olhar que examina as estrelas foi formado pela mesma história material que produziu as estrelas, os planetas, os oceanos e a vida.

A ciência pode observar o cérebro do pesquisador. Mas é através da consciência desse pesquisador que a própria ciência acontece.

Isso não invalida a investigação objetiva nem transforma toda realidade em experiência subjetiva. Apenas impede que tratemos a consciência como um acidente irrelevante. Se ela apareceu dentro da história do universo, sua existência também precisa participar da imagem que construímos desse universo.

O dentro das coisas

Em O fenômeno humano, Teilhard distingue aquilo que chama de “fora” e de “dentro” das coisas.

O fora corresponde ao que pode ser observado: estruturas, movimentos, relações, trocas químicas, mecanismos e comportamentos. O dentro corresponde à dimensão de interioridade que conhecemos diretamente em nós mesmos.

Nós sabemos que existe um dentro porque somos esse dentro.

Teilhard parte dessa experiência e realiza um movimento ousado. Se a consciência aparece evidentemente em pelo menos um ponto do universo e se o ser humano surgiu de uma longa continuidade material e biológica, ele considera incoerente afirmar que a interioridade apareceu absolutamente do nada somente no último instante do processo.

Por isso, propõe que aquilo que se torna evidente na consciência humana possua raízes anteriores. O dentro também teria uma história. A interioridade que em nós pensa, sente e se reconhece teria sido precedida por formas progressivamente mais elementares, difusas e rudimentares de espontaneidade.

É essa dimensão que ele chama de le dedans des choses — o dentro das coisas.

Precisamos reconhecer claramente o estatuto dessa afirmação. Teilhard não descobriu experimentalmente uma consciência escondida nos átomos. Ele parte de um dado — a consciência existe — e formula uma hipótese filosófica sobre sua continuidade com a história material do universo.

O próprio Teilhard afirma que pretende estabelecer uma sequência fenomenal, não demonstrar uma causalidade ontológica. Sua intenção declarada é “ver”, antes de explicar definitivamente. Entretanto, a amplitude que confere ao dentro das coisas ultrapassa aquilo que a observação empírica pode comprovar. Estamos diante de uma interpretação da realidade, não de uma lei científica estabelecida nos moldes da física.

Essa distinção não diminui sua ideia. Apenas nos permite recebê-la com rigor.

Uma pedra não pensa

Quando Teilhard utiliza a palavra consciência, nem sempre está falando da consciência reflexiva humana. Em determinados textos, emprega o termo num sentido muito amplo, capaz de incluir desde formas rudimentares de interioridade até o pensamento que sabe que pensa.

Se ignorarmos essa diferença, sua afirmação se transforma rapidamente numa caricatura.

Uma pedra não possui memória autobiográfica, não sofre conflitos afetivos e não contempla o próprio destino. Nem sequer constitui, no sentido teilhardiano, uma unidade centrada comparável a uma célula ou a um organismo. Uma rocha pode ser uma formação geológica extremamente antiga e complexa, mas continua sendo, em grande medida, um agregado de elementos, e não um centro vivo que se organiza e se mantém como totalidade.

Dizer que a matéria possui um dentro não significa distribuir psiquismos humanos em miniatura por todos os objetos. Significa afirmar que a matéria da qual a consciência emergiu não pode ser inteiramente estranha à possibilidade de interioridade.

Em vez de dizer que a pedra está consciente, seria mais preciso dizer: a história da pedra pertence à genealogia da consciência.

Os elementos que formam nosso corpo foram produzidos na história cósmica. A vida organizou matéria já existente. Os sistemas nervosos surgiram dentro da vida. E, em determinado momento, uma organização viva tornou-se capaz não apenas de perceber o ambiente, mas de perceber a si mesma percebendo.

Não existe uma pequena pessoa adormecida no átomo. Existe uma história na qual exterioridade, organização e interioridade começam a revelar relações cada vez mais profundas.

Uma única história, duas faces

Durante séculos, matéria e espírito foram frequentemente concebidos como substâncias separadas. De um lado estaria a matéria: extensa, mensurável, submetida às causalidades físicas. De outro, o espírito: interior, consciente, livre e pertencente a uma ordem diferente.

Depois de separar os dois domínios, o pensamento ocidental passou a enfrentar a dificuldade de reuni-los. Como algo imaterial agiria sobre um corpo material? Como o corpo produziria experiências interiores? Em que momento uma alma teria sido introduzida numa matéria que até então existia sem qualquer interioridade?

Teilhard procura escapar desse impasse. Para ele, matéria e espírito não constituem duas histórias independentes que se encontram por acaso no ser humano. São duas faces de uma única história evolutiva.

Observada de fora, essa história aparece como aumento de organização. Conhecida por dentro, aparece como interioridade, espontaneidade e consciência.

Isso não significa reduzir o pensamento a uma reação química. Também não significa colocar uma entidade espiritual dentro de uma máquina biológica. Significa perguntar se aquilo que chamamos matéria e aquilo que chamamos espírito não seriam dois aspectos de um único processo, progressivamente revelados conforme a organização se transforma.

A consciência depende da matéria, mas não pode ser descrita adequadamente apenas como quantidade de matéria. O próprio Teilhard observa, com sua franqueza habitual, que para pensar é preciso alimentar o corpo. A mais elevada experiência espiritual continua dependendo de oxigênio, metabolismo, sistema nervoso e condições materiais. Entretanto, a mesma quantidade de alimento pode sustentar pensamentos, escolhas e criações inteiramente diferentes.

A dependência é evidente. A equivalência simples, não.

Para Teilhard, o espírito não chega quando a matéria termina. Começa a manifestar-se através daquilo que a matéria se torna.

Complexidade não é quantidade

Para compreendermos essa passagem, precisamos esclarecer o que Teilhard chama de complexidade.

Complexidade não significa simplesmente possuir grande quantidade de elementos. Uma montanha contém incomparavelmente mais matéria do que uma célula, mas isso não faz dela uma organização mais complexa no sentido teilhardiano. Um monte de areia pode conter bilhões de grãos, e ainda assim cada grão permanece apenas justaposto aos demais.

Uma célula, embora microscópica, reúne moléculas, membranas, trocas químicas, processos energéticos e mecanismos de regulação numa unidade capaz de manter-se, responder ao meio e reproduzir-se. Suas partes não estão apenas amontoadas. Estão organizadas por relações extremamente precisas.

Complexidade, portanto, envolve multiplicidade organizada.

Quanto maior o número de elementos diferentes, quanto mais variadas as relações entre eles e quanto mais essas relações conseguem constituir uma unidade funcional, maior o grau de complexificação.

Por isso, crescer não significa necessariamente tornar-se mais complexo. Acrescentar elementos a uma estrutura pode produzir apenas acumulação. Uma sociedade pode multiplicar instituições e tornar-se mais burocrática, não mais consciente. Uma pessoa pode acumular informações e continuar incapaz de refletir sobre si. Uma rede pode conectar bilhões de indivíduos sem produzir verdadeira relação.

A complexificação teilhardiana não é o simples aumento das partes. É o surgimento de uma organização na qual as partes formam um todo progressivamente mais integrado.

E é aqui que aparece outra palavra decisiva: centração.

Complexificação e centração

O termo francês utilizado por Teilhard é centréité. Podemos traduzi-lo como centralidade, mas “centração” expressa melhor o movimento que ele deseja descrever.

Centração não significa que exista um comandante instalado no centro geométrico do organismo. Também não significa centralização autoritária nem hipertrofia do ego. Designa a capacidade de uma multiplicidade constituir uma unidade sem que suas diferenças desapareçam.

Uma célula é centrada porque seus processos participam da manutenção de uma unidade viva. Um organismo multicelular acrescenta outras ordens de integração. Seus tecidos e órgãos realizam funções diferentes, mas participam de uma mesma existência. Com a complexificação dos sistemas nervosos, as informações do corpo e do ambiente passam a ser coordenadas de maneiras cada vez mais amplas.

O todo não é apenas a soma das partes. Torna-se um centro de relação.

Teilhard sintetizará essa intuição numa fórmula extraordinariamente poderosa:

Complexité ⇋ Centréité ⇋ Conscience

Complexidade, centração e consciência.

As setas nos dois sentidos são importantes. Não se trata apenas de uma escada na qual primeiro colocamos complexidade, depois acrescentamos centração e finalmente instalamos consciência. Teilhard propõe uma relação estrutural: quanto mais uma multiplicidade se organiza formando um centro, mais intensa se torna sua interioridade; quanto mais intensa a interioridade, maior a capacidade de integrar relações numa unidade.

A formulação aparece explicitamente em seu ensaio O atomismo do espírito, reunido posteriormente em A ativação da energia. Em O fenômeno humano, ele afirma que a síntese material — a complexidade — e a centração consciente são duas faces ligadas de um mesmo fenômeno.

É dessa associação que nasce aquilo que ficou conhecido como lei de complexidade-consciência.

A lei de complexidade-consciência

Teilhard observa que, em determinadas linhas da evolução biológica, organismos dotados de sistemas nervosos mais organizados apresentam também comportamentos mais variados, maior capacidade de aprendizagem, formas mais amplas de sensibilidade e graus crescentes de autonomia diante do ambiente.

A partir dessa correlação, propõe uma hipótese geral: ao longo da evolução, aumentos de complexidade organizada seriam acompanhados por aumentos de interioridade.

Aqui precisamos caminhar ao lado dele sem confundir os passos.

Uma coisa é observar que diferentes formas de organização biológica se relacionam a diferentes capacidades cognitivas. Outra é afirmar que toda complexificação produz consciência. Outra, ainda mais ampla, é concluir que o universo inteiro possui uma orientação em direção a níveis crescentes de consciência.

Teilhard fará progressivamente esses três movimentos. Eles não possuem, entretanto, o mesmo estatuto epistemológico.

A relação entre estruturas nervosas, comportamento e experiência pode ser investigada cientificamente. A afirmação de uma dimensão interior presente, de forma rudimentar, em toda matéria é uma hipótese filosófica. A ideia de que a evolução caminha em direção a uma consumação da consciência pertencerá, mais adiante, à sua metafísica e à sua teologia.

Podemos considerar fecunda a ligação proposta por Teilhard sem anunciar que a ciência comprovou a consciência da matéria. Não comprovou.

Também precisamos lembrar que a evolução não faz todas as formas de vida caminharem uniformemente do simples ao complexo. Ela ramifica, experimenta, extingue linhagens, produz especializações e preserva formas relativamente simples extremamente bem adaptadas. Até mesmo a complexidade biológica pode ser medida de maneiras diferentes, e seus aumentos não acontecem igualmente em todos os níveis ou linhagens. Pesquisas contemporâneas mostram que tendências evolutivas dependem do aspecto observado, da métrica empregada e da história específica de cada grupo, como ilustra este estudo sobre a evolução da complexidade em mamíferos.

A vida não é uma fila na qual cada espécie aguarda sua promoção até tornar-se humana. As bactérias não são projetos atrasados de filósofos.

Teilhard procura identificar um eixo no interior da imensa ramificação evolutiva: em determinadas linhas, a organização tornou-se mais integrada, a interioridade mais manifesta e a capacidade de escolha mais ampla. É esse eixo que lhe interessa.

A complexidade-consciência é sua grande hipótese interpretativa. Não uma régua com a qual possamos classificar todos os seres numa hierarquia simplista.

As duas energias

Para descrever o movimento da complexificação, Teilhard introduz ainda as ideias de energia tangencial e energia radial.

A energia tangencial corresponde às relações pelas quais os elementos se associam a outros elementos do mesmo nível, formando arranjos materiais. A energia radial nomeia o movimento interior em direção a estados de maior complexidade e centração.

Esse vocabulário exige cuidado. Teilhard não está descrevendo duas energias físicas reconhecidas e mensuráveis como eletricidade, calor ou radiação. Não existe um aparelho capaz de medir a quantidade de energia radial de uma pessoa. A expressão cumpre uma função filosófica dentro de seu sistema.

A palavra energia é sedutora e, se não prestarmos atenção, faz turismo clandestino entre a física e a metafísica.

Teilhard era cientista, mas aqui o cientista começa a tornar-se filósofo. A energia tangencial procura representar o aspecto exterior das relações; a radial, a dimensão interior do movimento de centração. Ambas seriam componentes de uma única realidade observada segundo eixos diferentes.

Podemos aceitar essa linguagem como uma tentativa de pensar conjuntamente matéria e interioridade. Não devemos apresentá-la como conceito da física contemporânea nem usar palavras como energia, frequência ou vibração para transformar analogias espirituais em resultados científicos.

O rigor não empobrece Teilhard. Protege-o das apropriações que fazem sua obra dizer aquilo que ela nunca demonstrou.

Continuidade e emergência

Se matéria, vida e consciência pertencem à mesma história, poderíamos imaginar uma continuidade perfeitamente lisa: a pedra torna-se célula, a célula torna-se animal, o animal torna-se humano, como degraus previsíveis de uma escada.

Teilhard, porém, reconhece a existência de limiares e mudanças de estado.

A vida não é apenas matéria inorgânica com algumas peças acrescentadas. A consciência não é apenas vida em maior quantidade. E a reflexão não é simplesmente percepção intensificada. Em certos momentos, o aumento da organização produz uma novidade qualitativa.

Teilhard utiliza a imagem da água aquecida. A temperatura sobe gradualmente, mas, ao atingir determinado ponto, a água muda de estado. O processo foi contínuo; o que apareceu através dele possui propriedades novas.

Ele chama isso de descontinuidade de continuidade.

A expressão parece contraditória, mas contém uma de suas intuições mais fecundas. Aquilo que emerge não estava pronto, em miniatura, dentro do que veio antes. Ao mesmo tempo, não é estrangeiro à história que o produziu.

A vida não estava escondida dentro da pedra como uma planta dentro de uma semente. Mas só pôde aparecer através das possibilidades materiais construídas ao longo da história cósmica. A consciência reflexiva não estava pronta dentro da primeira célula. Mas não teria aparecido sem a longa aventura de organização da vida.

Continuidade não significa identidade. Emergência não significa ruptura absoluta.

É nesse ponto que Teilhard tenta atravessar novamente a divisão entre materialismo e espiritualismo. Ao materialista, ele diz: o ser humano pertence integralmente à história da natureza. Ao espiritualista, lembra: pertencer à natureza não esgota aquilo que surgiu através dela.

O espírito não precisa negar sua genealogia material para possuir novidade.

Quando a consciência sabe que sabe

A evolução da interioridade alcança, no pensamento de Teilhard, um limiar extraordinário: a reflexão.

Um animal percebe o ambiente, aprende, recorda, reage, deseja e pode demonstrar notável inteligência. Teilhard não nega a existência da consciência animal. Ao contrário, ela é indispensável à continuidade que procura demonstrar.

Mas, no ser humano, a consciência adquire a capacidade de voltar-se sobre si mesma. Não apenas conhece: reconhece-se conhecendo. Não apenas sente medo: pode perguntar por que sente medo. Não apenas deseja: pode investigar o próprio desejo. Não apenas vive: sabe que vive e antecipa que morrerá.

No capítulo dedicado ao nascimento do pensamento, Teilhard define a reflexão como a capacidade de uma consciência recolher-se sobre si e tornar-se objeto para si mesma: “não apenas saber, mas saber que sabe”.

Hoje, a investigação sobre cognição animal nos torna mais cautelosos diante de qualquer fronteira absoluta. Existem formas de autoconsciência, planejamento e metacognição em outras espécies que Teilhard não conheceu suficientemente. Não precisamos decidir aqui exatamente onde começa cada modalidade de reflexão.

A questão filosófica permanece: em determinado momento, a interioridade tornou-se capaz de construir uma representação de si, elaborar simbolicamente a experiência, transmitir conhecimento entre gerações e modificar deliberadamente suas formas de existência.

A consciência passou a possuir história cultural.

Com a linguagem, aquilo que uma consciência descobre pode ser compartilhado com outras. Com a escrita, o pensamento atravessa a morte de quem pensou. Com a ciência, o universo começa a reconstruir conscientemente a própria história. Com a arte, a experiência pode criar formas que antes não existiam. Com a ética, o ser humano pergunta não apenas o que pode fazer, mas o que deve fazer.

A evolução produziu um ser capaz de interrogar a evolução.

Não precisamos afirmar que o universo inteiro possua uma mente secreta que fala através de nós. Basta reconhecer o acontecimento extraordinário: uma parte da matéria cósmica organizou-se até tornar-se capaz de conhecer sua origem, imaginar seu futuro e participar conscientemente de suas transformações.

O dentro das coisas tornou-se capaz de olhar para si.

O aparecimento de graus de liberdade

A reflexão introduz também uma nova relação com os condicionamentos.

O ser humano continua submetido ao corpo, à história, ao ambiente, à cultura e às estruturas inconscientes. A consciência não nos concede liberdade absoluta. Não escolhemos as condições nas quais nascemos, grande parte das experiências que nos formaram nem todos os movimentos psíquicos que surgem dentro de nós.

Mas podemos adquirir alguma capacidade de participar daquilo que nos acontece.

Podemos reconhecer uma repetição, examinar uma crença, reconsiderar uma escolha, elaborar uma experiência e responder de maneira diferente a uma situação que antes produzia automaticamente a mesma reação. Entre o acontecimento e a resposta pode abrir-se um espaço de investigação.

É isso que podemos chamar de aparecimento de graus de liberdade.

Quanto mais uma consciência consegue reconhecer seus condicionamentos, integrá-los e relacionar-se com eles, menos precisa ser inteiramente governada por aquilo que desconhece. A liberdade não consiste em não possuir determinações. Consiste em ampliar a possibilidade de responder dentro delas.

Aqui começamos a perceber por que Teilhard poderá, mais tarde, entrar na clínica. A transformação psíquica não cria um ser sem história. Favorece o surgimento de um centro progressivamente capaz de participar da reorganização da própria história.

Mas há uma proteção ética indispensável: não podemos transformar a cosmologia teilhardiana num roteiro obrigatório para cada vida. Teilhard oferece uma direção geral de complexificação, centração e personalização; não oferece o destino singular de uma pessoa.

Se o terapeuta acredita saber antecipadamente aquilo que o outro deve tornar-se, a cosmologia se transforma em pedagogia normativa, a pedagogia se transforma em julgamento e o julgamento pode rapidamente converter-se em violência.

A consciência reflexiva não nos autoriza a conduzir o outro. Obriga-nos a reconhecer que nele também existe um centro cuja direção não pode ser apropriada pelo nosso saber.

A evolução torna-se consciente de si?

Costuma-se resumir Teilhard dizendo que, no ser humano, a evolução se torna consciente de si mesma. A frase é bela, mas precisa ser entendida com precisão.

Ela não significa necessariamente que o universo possua uma personalidade oculta e que nós sejamos apenas seus instrumentos. Significa que o processo evolutivo produziu seres capazes de descobrir que pertencem a esse processo.

Durante bilhões de anos, transformações cósmicas, geológicas e biológicas aconteceram sem que, até onde sabemos, alguém pudesse reconstruí-las conceitualmente. Com a consciência humana, aparece um ser que estuda fósseis, calcula a idade das estrelas, investiga a origem das espécies e compreende que seu próprio corpo pertence a essa longa história.

A evolução deixa de existir apenas como acontecimento e passa a existir também como conhecimento.

E, depois de conhecer, o ser humano começa a intervir. Modifica ambientes, seleciona espécies, produz tecnologias, altera o clima, manipula genes e cria sistemas capazes de processar quantidades imensas de informação. A consciência não é apenas espectadora. Tornou-se uma potência evolutiva.

Isso aumenta nossa liberdade, mas aumenta também nossa responsabilidade.

Possuímos hoje uma capacidade técnica muito superior à maturidade psíquica com que a utilizamos. Podemos transformar o planeta sem compreender suficientemente os desejos, medos e fantasias que orientam essa transformação. A evolução tornou-se capaz de agir sobre si mesma, mas não se tornou automaticamente sábia.

A reflexão é uma possibilidade, não uma garantia.

Complexidade tecnológica não é consciência

Nosso tempo oferece um exemplo particularmente importante dessa distinção.

Sistemas digitais podem processar informações, reconhecer padrões, produzir linguagem e realizar operações de enorme complexidade. Mas o aumento da complexidade exterior de um sistema não demonstra, por si só, a existência de experiência interior.

Podemos observar o desempenho de uma inteligência artificial. Podemos estudar sua arquitetura, acompanhar seus cálculos e avaliar suas respostas. Tudo isso pertence ao fora. Não temos acesso direto a um eventual dentro — nem sequer sabemos se esse dentro existe.

Dizer imediatamente “a máquina está consciente” seria transformar comportamento em prova ontológica. Dizer “é impossível que exista qualquer forma de interioridade” também ultrapassaria aquilo que sabemos. O pensamento de Teilhard não resolve o problema da consciência artificial, mas nos ensina a formular a pergunta corretamente.

Complexidade computacional não é automaticamente centração consciente.

A mesma advertência vale para nós. Uma sociedade pode aumentar sua complexidade técnica sem ampliar proporcionalmente sua consciência. Mais informação não produz necessariamente reflexão. Mais conexão não produz necessariamente relação. Mais velocidade não produz direção.

Podemos construir uma rede planetária e continuar agindo através de estruturas psíquicas tribais. Podemos acessar o conhecimento acumulado da humanidade e utilizá-lo apenas para confirmar preconceitos. Podemos criar máquinas capazes de simular diálogo enquanto perdemos a capacidade de escutar a pessoa que está diante de nós.

A complexificação externa oferece possibilidades. Somente a interiorização reflexiva pode transformá-las em responsabilidade.

A matéria como caminho do espírito

A ideia do dentro das coisas transforma profundamente a relação entre matéria e espiritualidade.

Se a interioridade emerge através da organização material, o caminho espiritual não pode consistir simplesmente em fugir da matéria. O corpo não é uma prisão acidental. A Terra não é um cenário provisório. A vida cotidiana não é um intervalo inferior entre experiências espirituais mais elevadas.

É no domínio da matéria que o espírito adquire forma, relação, história e possibilidade de ação.

Isso não significa idolatrar a matéria nem reduzir toda transcendência à biologia. Significa reconhecer que, para Teilhard, a ascensão da consciência acontece através da matéria, não apesar dela.

A experiência espiritual precisa atravessar o corpo que a recebe, a linguagem que a traduz, a cultura que a interpreta e as relações nas quais produz consequências. Uma espiritualidade que despreza essas mediações corre o risco de tornar-se imaginação sem encarnação.

A matéria oferece resistência, e essa resistência também nos forma. Um pensamento precisa encontrar palavras. Um projeto precisa atravessar o tempo. Um sonho precisa aceitar condições concretas para manifestar-se. O espírito pode imaginar infinitamente, mas somente quando encontra forma participa efetivamente do mundo.

Manifestar é encarnar.

Teilhard não procura libertar o espírito da matéria. Procura perceber o movimento pelo qual a matéria se torna capaz de espírito.

Minha interioridade não começou comigo

Talvez essa seja uma das consequências mais belas de sua visão: minha interioridade não começou comigo.

Aquilo que em mim sente, pensa, recorda, deseja e pergunta pelo sentido da existência possui uma história incomparavelmente mais antiga do que minha biografia. Antes de mim houve a formação dos elementos, das estrelas e da Terra. Houve o aparecimento da vida, a invenção da célula, a diferenciação dos organismos, a formação dos sistemas nervosos, a emergência da linguagem e a transmissão de incontáveis experiências humanas.

Cada consciência singular é recente. A história que a tornou possível é antiquíssima.

Isso não reduz a pessoa a um instante insignificante. Em Teilhard, produz exatamente o movimento contrário. Quanto mais a interioridade se concentra, mais singular se torna o centro no qual o universo é vivido.

Ninguém ocupa exatamente o mesmo ponto de experiência. Ninguém reúne a mesma história, os mesmos vínculos, a mesma sensibilidade e a mesma perspectiva. A evolução não produz apenas organismos mais complexos. No humano, produz alguém.

A consciência não é apenas mais uma função do universo. É o lugar singular no qual o universo se torna experiência.

A resposta escondida na pedra

Podemos agora retornar ao menino que procurava nas pedras alguma coisa que não pudesse morrer.

A pedra não lhe ofereceu a permanência imóvel que ele desejava. Ela oxidava, quebrava, sofria erosão e participava de transformações muito mais longas do que uma vida humana poderia acompanhar.

Mas talvez guardasse outra resposta.

A permanência não estava na imobilidade da coisa. Estava na continuidade do processo. A matéria se transformava, organizava-se, produzia novas relações e, em determinadas regiões de sua história, tornava-se viva. A vida complexificava-se, concentrava interioridade e, um dia, passava a saber que vivia.

A pedra não era eterna porque permanecia igual. Era profunda porque pertencia a uma história capaz de produzir consciência.

O menino procurava na matéria algo que não pudesse morrer. O adulto descobriria que a matéria não guarda o espírito permanecendo imóvel. Guarda-o tornando-se capaz de manifestá-lo.

Teilhard começa, assim, a construir uma visão na qual matéria, vida e consciência não são três acontecimentos separados. São momentos diferentes de uma mesma aventura cósmica.

Primeiro, a matéria se organiza. À medida que a organização se complexifica, aparecem formas crescentes de interioridade. A interioridade se concentra. E, em determinado momento, o centro se volta sobre si mesmo.

A consciência sabe que sabe.

Alguma coisa inteiramente nova surgiu. Mas nada do que surgiu deixou de pertencer à longa história que começou antes dela.

Ainda não demonstramos que essa história possua uma direção. Reconhecer uma sequência não é o mesmo que reconhecer um destino. Constatar que a consciência apareceu não prova que o universo inteiro caminhe necessariamente para formas mais elevadas de consciência.

Essa será a próxima pergunta.

Depois de introduzir o tempo nas coisas e descobrir um dentro na matéria, Teilhard olhará para o conjunto do processo e perguntará se, por trás de tantos caminhos, desvios, fracassos e emergências, existe uma orientação.

É então que o universo deixará de ser apenas movimento.

E começará a revelar uma flecha.

— Carmem Farage —



 
 
 

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