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O +Ser e a clínica do futuro: nem todo sofrimento vem da falta

  • Foto do escritor: Instituto Lumni TERAPIAS ESPIRITUALISTAS
    Instituto Lumni TERAPIAS ESPIRITUALISTAS
  • há 5 dias
  • 4 min de leitura
Nem todo sofrimento vem da falta

Existe uma ideia bastante difundida de que o sofrimento humano está diretamente ligado ao que aconteceu no passado, como se os eventos vividos carregassem em si mesmos a força suficiente para determinar o presente. Essa leitura, embora não seja totalmente equivocada, é profundamente limitada, porque desloca o eixo da experiência para fora do sujeito, como se a vida psíquica fosse apenas um efeito tardio daquilo que já se passou. O que a clínica contemporânea começa a mostrar com mais clareza é que o problema não está apenas nos acontecimentos, mas na forma como eles permanecem organizados no interior da experiência.

O ressentimento surge, nesse contexto, como uma das estruturas mais silenciosas e, ao mesmo tempo, mais determinantes da vida psíquica. Ele não é apenas um sentimento que aparece diante de uma dor ou de uma injustiça. Ele é, progressivamente, uma forma de fixação. Um modo de se posicionar diante da própria história. Há, evidentemente, uma dimensão legítima no ressentimento. Há dores que marcam, experiências que atravessam o sujeito de maneira profunda, situações que não foram compreendidas no momento em que ocorreram e que, por isso, permanecem abertas. Mas o que se observa, com o passar do tempo, é que o ressentimento deixa de ser uma resposta e passa a ser uma organização.

E é exatamente nesse ponto que algo se interrompe.

Porque, enquanto o ressentimento permanece como eixo organizador, o sujeito continua vinculado ao passado não como memória, mas como presença ativa. Não se trata de lembrar. Trata-se de continuar vivendo, de algum modo, dentro da mesma estrutura. A cena muda, os personagens mudam, as circunstâncias se transformam, mas o enredo se repete com uma fidelidade impressionante. E, na maior parte das vezes, isso não é percebido como repetição. É vivido como destino, como azar, como consequência inevitável daquilo que foi vivido.

A dificuldade de reconhecer esse movimento não é pequena. Ela exige um deslocamento que não é apenas intelectual. Não basta compreender que se está repetindo. É necessário sustentar o desconforto de perceber que, em algum nível, há uma participação ativa nessa permanência. E é justamente aqui que a resistência aparece com mais força. Porque abandonar o ressentimento não significa negar a dor, nem minimizar o que aconteceu. Significa abrir mão de uma posição que, embora limitante, oferece uma forma de coerência interna. O ressentimento organiza. Ele dá sentido, ainda que um sentido fechado, à experiência.

Mas esse sentido tem um custo.

Ele impede o movimento.

O que começa a emergir na clínica contemporânea é que nem todo sofrimento pode ser compreendido apenas como algo a ser elaborado no passado. Em muitos casos, trata-se de um ponto de estagnação no presente. Um lugar em que o sujeito permanece, mesmo quando a vida já não sustenta mais aquela posição. E é nesse momento que começa a aparecer uma outra dimensão da experiência, uma dimensão que não foi suficientemente considerada pelas abordagens tradicionais da psicologia.

Existe um movimento no ser humano que não é apenas reativo. Não é apenas resposta ao que aconteceu. É um movimento que aponta para frente, que tensiona a estrutura existente, que exige uma reorganização mais ampla da própria forma de estar no mundo. Esse movimento não é confortável. Ele não aparece como bem-estar. Ao contrário, muitas vezes ele se manifesta como inquietação, como perda de sentido, como sensação de inadequação diante da própria vida. E, na ausência de uma linguagem que possa nomeá-lo, ele é frequentemente tratado como sintoma, como desorganização, como algo a ser rapidamente resolvido.

Mas talvez nem tudo o que desorganiza seja patológico.

Talvez algumas formas de sofrimento sejam, na verdade, expressão de um limite que foi atingido.

Um limite daquilo que já não pode mais continuar como está.

É nesse ponto que se torna possível introduzir uma outra leitura, ainda incipiente, mas cada vez mais necessária: a ideia de que há, no interior da experiência humana, uma exigência de ampliação que não pode mais ser ignorada. Uma exigência que não vem de fora, que não se impõe como norma, mas que emerge como um aumento de tensão interna, como uma demanda por mais realidade, mais integração, mais responsabilidade sobre a própria vida.

Tenho chamado esse movimento de +Ser.

Não como conceito fechado, mas como operador clínico.

O +Ser não é uma proposta de melhora no sentido convencional. Não se trata de ser melhor, mais ajustado, mais funcional. Trata-se de um aumento de complexidade. Um aumento de exigência. Um ponto em que a vida já não permite mais que o sujeito permaneça organizado a partir das mesmas estruturas que até então eram suficientes.

E o ressentimento, nesse contexto, aparece como um dos principais pontos de interrupção desse movimento.

Porque ele fixa.

Ele mantém o sujeito ligado a uma forma de organização que já não sustenta o que está tentando emergir. Ele impede o deslocamento necessário para que algo novo possa se constituir. E, ao fazer isso, ele transforma o sofrimento em repetição.

A questão que se coloca, então, não é mais apenas compreender o que aconteceu, nem mesmo elaborar completamente o passado. A questão passa a ser outra, mais difícil e, talvez, mais decisiva: até que ponto o sujeito está disposto a não permanecer onde já não há mais crescimento possível.

Essa não é uma pergunta simples.

Ela não pode ser respondida rapidamente, nem resolvida por técnicas ou intervenções pontuais. Ela exige um trabalho de implicação. Um reconhecimento progressivo de que, em algum momento, o movimento da vida deixa de ser apenas algo que nos acontece e passa a ser algo que nos convoca.

E é possível que o ponto mais delicado de todo esse processo seja justamente esse: reconhecer que o sofrimento, em determinados momentos, não é apenas algo a ser aliviado, mas algo a ser atravessado de outra forma.

Não para permanecer nele.

Mas para não continuar repetindo-o.


 
 
 

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