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Cegueira de luz: quando uma sociedade vê tudo e já não consegue enxergar

Foto do escritor: Instituto Lumni TERAPIAS ESPIRITUALISTAS
Instituto Lumni TERAPIAS ESPIRITUALISTAS
há 5 horas
6 min de leitura

Cegueira de luz: quando uma sociedade vê tudo e já não consegue enxergar

Em Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago imaginou uma epidemia estranha. As pessoas não perdiam a visão mergulhando na escuridão. Ao contrário. Eram tomadas por uma luminosidade intensa, leitosa, quase absoluta. Uma cegueira branca, como se os olhos estivessem inundados por luz.

Há algo profundamente perturbador nessa imagem.

Estamos acostumados a pensar que a cegueira nasce da ausência: ausência de luz, de conhecimento, de informação, de educação. Durante séculos, acreditamos que o grande obstáculo à emancipação humana fosse a ignorância produzida pela escassez do saber. Parecia lógico imaginar que, quanto maior fosse o acesso à informação, mais esclarecida se tornaria a humanidade.

Então construímos uma das mais extraordinárias ferramentas da história.

A internet colocou bibliotecas, universidades, jornais, obras de arte, documentos históricos, pesquisas científicas e praticamente todo o conhecimento acumulado pela humanidade ao alcance de uma pequena tela que carregamos no bolso.

E alguma coisa inesperada aconteceu.

O acesso à informação cresceu exponencialmente.

A consciência, não necessariamente.

Talvez tenhamos cometido um equívoco elementar ao imaginar que informação e conhecimento fossem a mesma coisa. E um equívoco ainda maior ao supor que conhecimento produzisse automaticamente sabedoria.

Não produz.

A informação precisa atravessar um sujeito capaz de recebê-la, interrogá-la, relacioná-la com outras informações, reconhecer suas próprias crenças e suportar aquilo que contradiz suas convicções.

Caso contrário, ela apenas se acumula.

E o excesso também pode cegar.

Quando tudo pode ser visto

Nunca tivemos acesso a tantas imagens.

Guerras são transmitidas quase instantaneamente. Discursos políticos circulam em segundos. Crimes são filmados. Documentos vazam. Especialistas discutem publicamente. Instituições publicam dados. Pessoas comuns registram acontecimentos que, algumas décadas atrás, jamais teriam ultrapassado os limites de uma pequena comunidade.

Vemos presidentes, guerras, catástrofes, revoluções, protestos, escândalos, descobertas científicas e tragédias humanas enquanto esperamos o elevador.

Tudo está diante dos olhos.

Mas ver não é necessariamente enxergar.

Porque entre o acontecimento e a consciência existe agora uma imensa arquitetura de mediação: algoritmos, redes sociais, influenciadores, recortes, manchetes, vídeos, comentários, memes, interpretações e disputas narrativas.

O problema não está simplesmente na existência dessa arquitetura.

Toda sociedade sempre interpretou o mundo.

O problema começa quando deixamos de perceber que estamos diante de interpretações.

Uma imagem aparece na tela acompanhada de uma legenda. Um fragmento de vídeo recebe um título. Uma fala é cortada. Um acontecimento complexo é reduzido a alguns segundos.

E rapidamente aquilo que deveria ser objeto de investigação transforma-se em evidência.

“Eu vi.”

Mas o que exatamente vimos?

Talvez tenhamos visto apenas aquilo que uma determinada moldura permitiu que víssemos.

A internet não inventou a manipulação, a mentira, a propaganda ou a ignorância. Tudo isso é muito mais antigo do que qualquer tecnologia digital.

A internet é ferramenta.

Uma faca pode cortar o pão ou ferir alguém. Sua potência não determina seu uso.

A verdadeira questão talvez seja outra:

que espécie de humanidade recebeu essa ferramenta?

A sociedade da saturação

Há um paradoxo curioso no nosso tempo.

Quanto mais informações recebemos, menos tempo temos para elaborá-las.

Uma notícia é substituída por outra antes que consigamos compreendê-la. Uma indignação atropela a anterior. Uma tragédia ocupa as redes por algumas horas e logo desaparece sob uma nova avalanche de acontecimentos.

A atenção tornou-se um território disputado.

O que importa já não é necessariamente aquilo que merece ser conhecido, mas aquilo que consegue capturar o olhar.

Byung-Chul Han utiliza o termo infocracia para pensar uma sociedade em que a circulação maciça de informações transforma a própria dinâmica política.

A dominação contemporânea não precisa necessariamente impedir que as pessoas falem.

Talvez seja suficiente fazer com que todos falem simultaneamente.

Milhões de vozes.

Milhões de imagens.

Milhões de versões.

O resultado pode não ser maior pluralidade, mas ruído.

E o ruído possui uma característica peculiar: ele não elimina a informação. Ele a torna indistinguível.

É novamente a imagem de Saramago.

Não falta luz.

Há luz demais.

O desaparecimento do mundo comum

Hannah Arendt compreendeu que a vida política depende da existência de um mundo compartilhado.

Podemos discordar profundamente sobre o significado dos acontecimentos. Podemos defender projetos de sociedade completamente diferentes. Podemos interpretar de maneiras opostas uma decisão política, uma guerra, uma crise econômica ou uma transformação cultural.

Mas alguma realidade comum precisa continuar existindo para que a discordância seja possível.

Quando desaparece esse terreno mínimo, algo grave acontece.

Já não discutimos sobre o significado dos fatos.

Passamos a discutir se os próprios fatos existem.

Cada grupo constrói seu universo informacional, escolhe seus intérpretes, suas fontes, seus especialistas e suas narrativas.

A realidade começa a se fragmentar em pequenos territórios de confirmação.

Não procuramos necessariamente informações para compreender o mundo.

Procuramos frequentemente informações para confirmar o mundo que já carregamos dentro de nós.

Nesse ponto, a cegueira torna-se coletiva.

Mas não porque todos estejam vendo a mesma coisa.

Talvez o fenômeno contemporâneo seja ainda mais complexo: existem muitas cegueiras acontecendo ao mesmo tempo.

Cada grupo enxerga intensamente uma parte da realidade e torna-se progressivamente incapaz de perceber aquilo que existe fora do seu campo visual.

A luz continua acesa.

Mas o mundo comum começa a desaparecer.

A tentação de chamar o outro de cego

Existe, entretanto, um perigo adicional.

É muito fácil ler Saramago e concluir:

“Os outros estão cegos.”

Esse talvez seja o momento em que começamos também a perder a visão.

A mulher do médico, a única personagem que continua enxergando no romance, não recebe sua visão como um privilégio de superioridade.

Ela sofre porque vê.

E justamente porque vê, torna-se responsável.

Precisa cuidar.

Precisa testemunhar.

Precisa conduzir.

Precisa suportar aquilo que os outros já não conseguem perceber.

Talvez esteja aí uma das grandes intuições éticas do romance.

Ver não concede autoridade absoluta.

Concede responsabilidade.

Quando alguém se coloca definitivamente na posição daquele que vê enquanto todos os outros seriam cegos, instala-se outra forma de violência.

Toda certeza pode transformar-se em cegueira quando deixa de admitir a possibilidade do próprio erro.

Por isso, talvez uma posição verdadeiramente lúcida comece pela pergunta:

Onde também não estou vendo?

Não se trata de relativizar tudo.

Nem toda afirmação possui o mesmo valor. Nem toda interpretação é igualmente sustentada pelos fatos. Existem mentiras, manipulações e falsificações.

Mas reconhecer a existência da verdade não significa imaginar que qualquer indivíduo possua acesso total a ela.

Somos seres perspectivos.

Vemos fragmentos.

Interpretamos.

Corrigimos.

Aprendemos.

E talvez seja precisamente essa humildade epistemológica que esteja se tornando rara.

A tecnologia avançou mais rápido que a consciência

Há outra questão ainda mais profunda.

Nossa capacidade tecnológica cresceu extraordinariamente em poucas gerações.

Criamos sistemas capazes de conectar bilhões de pessoas em tempo real. Construímos máquinas que armazenam quantidades gigantescas de informação. Desenvolvemos inteligência artificial capaz de produzir textos, imagens, diagnósticos, análises e soluções que há pouco tempo pareceriam ficção científica.

Nossa potência aumentou.

Mas potência não é maturidade.

Teilhard de Chardin imaginou a humanidade caminhando progressivamente para uma complexificação da consciência, formando aquilo que chamou de noosfera: uma espécie de camada planetária de pensamento e comunicação.

É difícil olhar para a internet sem perceber algo surpreendentemente próximo dessa imagem.

A humanidade está conectada.

Mas conexão não significa comunhão.

Milhões de pessoas podem estar ligadas pela mesma rede e permanecer radicalmente separadas na consciência.

A tecnologia pode conectar nossas máquinas muito antes de conseguirmos conectar verdadeiramente nossas experiências humanas.

Esse talvez seja um dos grandes desafios do nosso tempo.

Construímos instrumentos de enorme poder antes de amadurecermos suficientemente para utilizá-los.

E não é a primeira vez que isso acontece na história.

A humanidade quase sempre desenvolveu suas ferramentas antes de compreender plenamente suas consequências.

Aprender a enxergar

Talvez, portanto, a grande questão contemporânea não seja ampliar ainda mais o acesso à informação.

Talvez seja desenvolver a capacidade de transformá-la em consciência.

Isso exige algo mais difícil do que simplesmente ler, assistir ou compartilhar.

Exige pensamento.

Pensar significa interromper a reação automática.

Significa perguntar de onde veio uma informação, quem a produziu, em que contexto surgiu, que interesses atravessam sua circulação.

Significa também observar aquilo que acontece dentro de nós quando encontramos uma ideia que confirma ou ameaça nossas convicções.

Porque nossa cegueira não está apenas fora.

Está dentro.

Somos atravessados por medos, desejos, ressentimentos, identificações, feridas, ideologias, histórias familiares e pertencimentos coletivos.

Tudo isso participa da maneira como vemos o mundo.

Por isso, aprender a enxergar é também uma tarefa interior.

Talvez a crise política contemporânea seja, em alguma medida, uma crise da consciência.

Não porque política possa ser reduzida à psicologia individual. Estruturas econômicas, históricas e sociais existem e precisam ser compreendidas.

Mas nenhuma estrutura funciona sem sujeitos que a sustentem, reproduzam ou transformem.

O mundo coletivo atravessa a consciência individual.

E a consciência individual retorna ao mundo coletivo.

Há aí um movimento circular do qual não escapamos.

Quando ver deixa de ser suficiente

Saramago escreveu sobre uma epidemia de cegueira.

Talvez nós estejamos vivendo algo diferente.

Não deixamos de ver.

Talvez estejamos vendo demais.

Imagens demais.

Opiniões demais.

Informações demais.

Certezas demais.

E, no meio dessa luminosidade incessante, alguma coisa essencial pode estar desaparecendo: nossa capacidade de permanecer diante da realidade tempo suficiente para compreendê-la.

Talvez a crise do nosso tempo não seja uma crise de acesso ao real.

Talvez seja uma crise da capacidade humana de permanecer diante dele sem reduzi-lo.

Porque enxergar exige mais do que olhos abertos.

Exige silêncio.

Exige dúvida.

Exige discernimento.

Exige a disposição de reconhecer que aquilo que vemos nunca é o todo.

E talvez seja justamente esse o aprendizado mais difícil para uma sociedade que acredita ter o mundo inteiro diante de uma tela.

Nunca vimos tanto.

Nunca tivemos tanto acesso.

Nunca fomos tão conectados.

E, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão necessário reaprender uma das mais antigas tarefas humanas:

enxergar.

 
 
 

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