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Modernidade gasosa


Carmem Farage

Instituto Lumni

www.institutolumni.com

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Sexta feira é dia de ir à Filarmônica.

O concerto sempre começa às 20:30 em ponto. Eu termino meu dia de atendimentos aos meus pacientes calculadamente às 19:50, pois levanto de minha poltrona de onde os realizo de meu computador, vou até a cozinha, e ao mesmo tempo em que estico as pernas, eu como alguma coisa leve antes de me acomodar novamente na melhor poltrona da sala e acomodar os equipamentos virtuais de última geração que adquiri e que tem o propósito de me “ligar” a qualquer lugar com o qual eu queira interagir.

Particularmente gosto das invenções tecnológicas de última geração. Elas tem facilitado muito minha vida. Aviso à Bárbara que já estou indo...

Faltam quinze minutos para o início do concerto, mas eu gosto de chegar cedo para observar os últimos acordes desencontrados do ensaio prévio da orquestra. Ao colocar os óculos e acionar a sala de concertos, me vejo e me sinto na porta de entrada da filarmônica. Enquanto aguardo a chegada da Bárbara, que não demora mais que um minuto pra entrar, retiro de meu bolso meu ingresso que é imediatamente checado pelo rapaz na portaria. Ele é sempre gentil e bem vestido. Junto comigo, além da Bárbara - sempre vamos juntas - algumas dezenas de pessoas comuns e que eu já vi outras vezes, surgem também na porta e entram na fila. Elas também ligaram seus óculos virtuais.

Nosso ingresso é comprado com antecedência para todos os concertos do ano que desejamos assistir e minha poltrona é sempre a mesma. Cumprimento pessoas e nos dirigimos para a porta de entrada do grande salão. Vejo que algumas pessoas se dirigem ao hall de entrada para conversar umas com as outras antes de tomarem seus assentos. Eu e Bárbara não. Preferimos ir direto aos lugares reservados. sinto o cheiro bom que paira no ar. Eles sempre usam um perfume muito delicado e ligeiramente frutado no local.

Já assentada, observo então os tais acordes e também às outras pessoas que entram e tomam seus lugares. Percebo que, como sempre, a sala está cheia. É sempre uma surpresa boa perceber que as pessoas gostam de música clássica.

Aguardo alguns minutos e ao soar a segunda campainha, os últimos remanescentes da orquestra saem do palco e imediatamente rapazes de preto e luvas brancas entram afim de arrumar os lugares dos músicos no palco. Me animo e fico feliz ouvindo a mistura de burburinho das pessoas com as cadeiras do palco sendo arrastadas.

Às 20:30 em ponto os músicos da orquestra tomam seus assentos sob aplausos do público, seguidos do maestro. O concerto transcorre no tempo, divinamente... e eu aproveito cada acorde como se não houvesse amanhã. Minha mente fica absolutamente imersa no fluido musical e me enche de encantamento.

Ao fim do concerto, sob os agradecimentos e aplausos, eu e Bárbara conversamos um pouco, colocamos o assunto em dia, me dirijo à porta de saída e num toque sutil consciente, desligo meus equipamentos virtuais que me trazem num átimo de segundo à minha poltrona em minha casa novamente.

Já são 22:30 e eu fico ali por instantes relembrando a experiência fantástica da noite. Fico pensando em como a vida é mais fácil, agradável e segura nestes tempos de realidade virtual.

“Este devaneio que tive em meio a uma noite de sexta feira na filarmônica junto com a Bárbara, me diz que no futuro, desfrutaremos dessa modernidade gasosa.”

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